Ácido úrico: o que o exame mostra

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Dra. Nathalia Danelli

8 de outubro de 2026

Ácido úrico: o que o exame mostra

O ácido úrico é o produto final do metabolismo das purinas no corpo humano, e o exame mede quanto dele circula no sangue. No ELSA-Brasil, maior estudo de coorte de adultos do país, o ponto usado para definir ácido úrico alto foi 6,8 mg/dL ou mais, e 18,7% dos participantes estavam nessa faixa. Estar acima desse valor não é diagnóstico de gota, não é diagnóstico de doença nenhuma e, na maior parte das pessoas, não produz sintoma. O que o número indica é uma pista metabólica que precisa ser lida junto com peso, pressão, glicemia e função dos rins.

De onde vem o ácido úrico do sangue?

As purinas são componentes do material genético das células. Quando células do próprio corpo se renovam e quando certos alimentos são digeridos, as purinas são quebradas e o produto final dessa quebra é o ácido úrico, eliminado principalmente pelos rins. Isso significa que o valor do exame depende de duas coisas ao mesmo tempo: quanto o corpo produz e quanto consegue eliminar. Em duas coortes de nascimento brasileiras, com cerca de 3.500 adultos jovens cada, o ácido úrico apareceu inversamente associado à taxa de filtração glomerular estimada, mesmo depois de ajuste para fatores perinatais, cardiometabólicos e comportamentais. Quem tem o exame alterado precisa, por isso, ter a função renal avaliada junto.

Qual valor de ácido úrico é considerado alto?

Não existe um corte único usado no mundo inteiro, e o laudo do laboratório traz o valor de referência do método que ele usa. Nos dois estudos do ELSA-Brasil citados aqui, a hiperuricemia foi definida como ácido úrico de 6,8 mg/dL ou mais, com ou sem uso de medicação redutora. Nesse mesmo grupo de 12.575 adultos de 35 a 74 anos, a média caiu de 5,4 mg/dL na primeira visita para 5,1 mg/dL na terceira, ao longo de oito anos, e a incidência de hiperuricemia foi de 8,87 casos por mil pessoas por ano. Dito de outro modo: o valor isolado importa menos do que a tendência ao longo do tempo e o contexto clínico de quem fez o exame.

Por que o ácido úrico sobe?

O fator mais consistente é a gordura corporal. Num estudo chinês com 22.655 adultos que reconstruiu a trajetória de peso ao longo dos primeiros 50 anos de vida, quem saiu de magro e ganhou peso de forma marcada teve risco de hiperuricemia 1,84 vez maior nas mulheres e 1,91 vez maior nos homens, comparado a quem se manteve magro. A alimentação também pesa: no ELSA-Brasil, cada 100 g por dia a mais de alimentos ultraprocessados foi associada a um aumento de 5,6% na incidência de hiperuricemia em quatro anos. Vale ler também o que já publicamos sobre ultraprocessados e inflamação.

O ácido úrico alto causa síndrome metabólica?

Essa é a pergunta mais importante do tema, e a resposta honesta é que a direção da seta não está estabelecida. Uma revisão de 2024 sobre gota e síndrome metabólica conclui que, apesar da associação clara nos estudos observacionais, não há prova de causalidade, e que a maioria dos estudos de randomização mendeliana não encontrou a hiperuricemia como fator causal das condições da síndrome, sugerindo causalidade reversa. Num desses estudos, com cerca de 10 mil participantes, o urato geneticamente mais alto se associou a triglicérides, pressão sistólica e diastólica mais altas e HDL mais baixo, mas não se associou a glicemia de jejum, hemoglobina glicada, circunferência da cintura nem índice de massa corporal. Já a cintura apareceu causalmente associada a todos os componentes, inclusive ao próprio urato.

Baixar o ácido úrico com medicação reduz o risco cardiovascular?

Nos ensaios feitos em pessoas sem gota, não. O ALL-HEART randomizou 5.721 pessoas de 60 anos ou mais com doença isquêmica do coração e sem história de gota para alopurinol ou cuidado usual, e acompanhou por 4,8 anos em média. O desfecho combinado de infarto não fatal, acidente vascular cerebral não fatal ou morte cardiovascular ocorreu em 11,0% do grupo alopurinol e 11,3% do cuidado usual, com razão de risco de 1,04 e intervalo de confiança de 95% de 0,89 a 1,21. A mortalidade por qualquer causa também não diferiu. No CKD-FIX, em pessoas com doença renal crônica em estágio 3 ou 4 e sem gota, o alopurinol não desacelerou a queda da filtração glomerular em relação ao placebo.

Então para que serve o exame?

Associação não é o mesmo que utilidade da conduta. Os dois ensaios acima não mostram que o ácido úrico seja irrelevante: mostram que, em quem não tem gota, tratar o número não entregou benefício cardiovascular nem renal. O que o exame alterado faz bem é funcionar como sinalizador. Ele aparece junto com excesso de gordura visceral, pressão alta, triglicérides altos e HDL baixo, e por isso é um bom motivo para investigar o conjunto. É aí que entram a síndrome metabólica, a resistência à insulina e a esteatose hepática, que costumam andar no mesmo bloco.

Quando a medicação é indicada?

A diretriz de 2020 do Colégio Americano de Reumatologia é clara sobre o cenário em que a terapia redutora de urato tem recomendação forte: pessoas com gota que tenham tofos, dano articular visível em exame de imagem atribuível à gota, ou crises frequentes. Nesses casos, a diretriz recomenda o alopurinol como primeira escolha, incluindo quem tem doença renal crônica moderada a grave, iniciando em dose baixa e ajustando com medidas seriadas de urato até um alvo abaixo de 6 mg/dL, com profilaxia anti-inflamatória por pelo menos três a seis meses no começo do tratamento. Nada disso se aplica a quem apenas tem o exame alterado. Não use nem suspenda medicação por conta própria.

O que muda na prática?

O que tem efeito medido são mudanças que valem por si mesmas. No ELSA-Brasil, cada ponto a mais de adesão ao padrão alimentar DASH, rico em frutas, verduras, grãos integrais e lácteos magros e pobre em sódio, acelerou a queda do ácido úrico e reduziu em 4,3% a incidência de hiperuricemia ao longo de oito anos. Reduzir ultraprocessados e cuidar da composição corporal atuam na causa mais provável, que é o excesso de gordura, e não apenas no número do laudo. Para acompanhar composição corporal, a bioimpedância e a hemoglobina glicada completam o quadro.

Perguntas frequentes sobre ácido úrico

Ácido úrico alto significa que eu tenho gota?

Não. A gota é uma doença causada pelo depósito de cristais de urato nas articulações, com crises de dor e inflamação. Ter o exame alterado sem nunca ter tido crise é uma situação diferente, e muito mais comum: no ELSA-Brasil, 18,7% dos adultos tinham ácido úrico de 6,8 mg/dL ou mais. O diagnóstico de gota depende do quadro clínico, não do número isolado.

Qual valor de ácido úrico é considerado alto?

Depende do laboratório e do método, e o valor de referência vem no próprio laudo. Nos estudos brasileiros citados aqui, o corte usado foi 6,8 mg/dL. Como referência de tratamento, e apenas para quem já tem gota em terapia redutora de urato, a diretriz americana de 2020 trabalha com alvo abaixo de 6 mg/dL.

Preciso cortar carne vermelha se meu ácido úrico está alto?

A evidência brasileira disponível aponta para o padrão alimentar como um todo, não para a exclusão de um alimento. Maior adesão ao padrão DASH reduziu a incidência de hiperuricemia, e maior consumo de ultraprocessados aumentou. Dieta restritiva por conta própria costuma ser menos eficaz do que ajustar o padrão geral com acompanhamento.

Ácido úrico alto aumenta o risco de infarto?

Nos estudos observacionais, ácido úrico alto aparece junto com mais risco cardiovascular. Mas quando o ALL-HEART tratou o ácido úrico com alopurinol em 5.721 pessoas com doença isquêmica do coração e sem gota, não houve redução de infarto, acidente vascular cerebral ou morte cardiovascular. Andar junto não é o mesmo que causar, e tratar o marcador não equivaleu a tratar o risco.

Emagrecer reduz o ácido úrico?

A gordura corporal é o fator mais consistentemente ligado ao ácido úrico alto, e estudos de randomização mendeliana apontam o índice de massa corporal do adulto como causa do aumento do urato, não o contrário. Isso torna o cuidado com peso e composição corporal a abordagem mais lógica, embora a magnitude da queda do exame varie de pessoa para pessoa.

Conteúdo informativo, sem substituir avaliação individual. Veja mais em Metabolismo e composição corporal ou conheça o acompanhamento em Emagrecimento e Saúde Metabólica.