Esteatose hepática (gordura no fígado)

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Dra. Nathalia Danelli

22 de setembro de 2026

Esteatose hepática (gordura no fígado)

Esteatose hepática é o acúmulo de gordura dentro das células do fígado. Quando ela aparece junto de pelo menos um fator de risco cardiometabólico (excesso de peso ou de cintura, glicose alta ou diabetes tipo 2, pressão alta, triglicérides altos ou HDL baixo), recebe hoje o nome de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla em inglês MASLD. O nome substituiu, em 2023, a antiga “doença hepática gordurosa não alcoólica”, por consenso internacional das sociedades de hepatologia, com 236 especialistas de 56 países. A mudança não é só de palavras: o diagnóstico passou a partir da presença de disfunção metabólica, e não apenas da exclusão do álcool. Quem tem esteatose metabólica e também consome álcool em maior quantidade entra numa categoria própria, a MetALD. Quando, além da gordura, há inflamação e lesão das células do fígado, o quadro recebe o nome de esteato-hepatite, ou MASH.

Gordura no fígado é comum?

Sim. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na revista Hepatology em 2023, que reuniu 92 estudos populacionais e mais de 9 milhões de pessoas, estimou a prevalência mundial da doença em cerca de 30%. A frequência cresceu ao longo do tempo: de 25% no período de 1990 a 2006 para 38% entre 2016 e 2019. A América Latina teve a maior prevalência estimada entre as regiões analisadas, em torno de 44%. Um dado do mesmo estudo ajuda a entender o peso clínico do diagnóstico: entre as pessoas com a doença, a mortalidade por causas cardíacas foi maior que a mortalidade por causas hepáticas. Por isso a esteatose funciona como um sinal de alerta metabólico, que pede atenção ao coração, à glicose, à pressão e à distribuição de gordura no corpo, e não só ao fígado. Sobre a gordura que se acumula entre os órgãos, leia tesamorelina e gordura visceral.

Esteatose hepática é grave?

Depende de quanto o fígado já foi afetado. A gordura, por si só, é o estágio inicial. O que define o prognóstico é a fibrose, a cicatrização progressiva do tecido do fígado, classificada em estágios de F0 (sem fibrose) a F4 (cirrose). Uma meta-análise publicada na Hepatology em 2017, com 1.495 pacientes de cinco coortes, mostrou que o risco de morte aumenta a cada estágio de fibrose, e que o risco de morte por doença do fígado cresce de forma exponencial à medida que a fibrose avança. Os autores descrevem a fibrose como o preditor mais importante de mortalidade nessa doença. A consequência prática é clara: diante de um laudo de esteatose, a pergunta que importa não é apenas quanto de gordura existe, mas se existe fibrose e em que grau. É essa resposta que orienta a intensidade do acompanhamento.

Como se investiga a gordura no fígado?

A diretriz europeia de 2024, publicada em conjunto pelas sociedades europeias de fígado (EASL), diabetes (EASD) e obesidade (EASO), recomenda procurar fibrose em quem tem fatores de risco cardiometabólicos, enzimas do fígado alteradas ou sinais de esteatose em exame de imagem, sobretudo em pessoas com diabetes tipo 2 ou com obesidade somada a outro fator de risco. A investigação é feita em etapas. Primeiro, um escore calculado a partir de exames de sangue, como o FIB-4. Depois, quando necessário, um exame de imagem que mede a rigidez do fígado, como a elastografia hepática transitória. Segundo a diretriz, esse caminho serve para afastar ou confirmar fibrose avançada, que é o que prevê complicações do fígado. A leitura desses resultados é feita em consulta, junto com o restante da avaliação metabólica: glicose, perfil de gordura no sangue, pressão e composição corporal.

Esteatose hepática tem tratamento?

Sim, e a base é a perda de peso. Num estudo prospectivo com 293 pacientes com esteato-hepatite confirmada por biópsia, publicado na Gastroenterology em 2015, a melhora do fígado acompanhou o tamanho da perda de peso obtida com mudança de estilo de vida em 52 semanas. Entre os que perderam 10% do peso ou mais, 90% tiveram resolução da esteato-hepatite e 45% tiveram regressão da fibrose. No mesmo estudo, 30% dos participantes perderam pelo menos 5% do peso no período. A diretriz europeia recomenda mudança alimentar, atividade física, desestímulo ao consumo de álcool e tratamento adequado das condições associadas, incluindo medicamentos baseados em incretinas, como semaglutida e tirzepatida, quando indicados para diabetes tipo 2 ou obesidade. A cirurgia bariátrica também é uma opção para pessoas com esteatose e obesidade. Como o objetivo é reduzir gordura, e não apenas o número da balança, vale entender a diferença entre perder peso e perder gordura.

Canetas de GLP-1 tratam gordura no fígado?

A semaglutida 2,4 mg tem hoje a evidência mais robusta. No ESSENCE, ensaio de fase 3 publicado no New England Journal of Medicine em 2025, 800 pacientes com esteato-hepatite e fibrose moderada ou avançada (F2 ou F3) confirmadas por biópsia foram avaliados após 72 semanas. A esteato-hepatite se resolveu, sem piora da fibrose, em 62,9% do grupo semaglutida e em 34,3% do grupo placebo; a fibrose melhorou, sem piora da inflamação, em 36,8% contra 22,4%. Os efeitos gastrointestinais foram mais frequentes com semaglutida. Esse resultado é uma análise interina de um estudo que continua em andamento: ele mediu melhora na biópsia, não desfechos como cirrose ou morte. Com base nesses dados, a Anvisa aprovou em dezembro de 2025 a indicação do Wegovy para adultos sem cirrose com esteato-hepatite e fibrose moderada a avançada. Sobre as versões da molécula no Brasil, leia semaglutida genérica.

Outros conteúdos sobre o tema estão em Metabolismo e composição corporal. A avaliação individual é feita no acompanhamento de emagrecimento e saúde metabólica.

Perguntas frequentes

Esteatose hepática tem cura?

A esteatose pode regredir. Num estudo com biópsia, entre as pessoas que perderam 10% do peso ou mais com mudança de estilo de vida, 90% tiveram resolução da esteato-hepatite e 45% tiveram regressão da fibrose. O resultado depende do estágio da doença e de cada caso.

Esteatose hepática dá sintomas?

Na maioria das pessoas, não, especialmente quando há apenas gordura, sem inflamação. Algumas relatam desconforto abdominal, cansaço ou mal-estar. Por isso a esteatose costuma ser investigada a partir de exames, e não de sintomas.

Qual a diferença entre esteatose e esteato-hepatite?

Esteatose é o acúmulo de gordura nas células do fígado. Esteato-hepatite (MASH) é quando, além da gordura, há inflamação e lesão dessas células. A diferença é confirmada por biópsia.

Que exame mostra se a gordura no fígado já causou fibrose?

A diretriz europeia de 2024 recomenda começar por um escore calculado com exames de sangue, como o FIB-4, e, quando necessário, seguir para a elastografia hepática, exame de imagem que mede a rigidez do fígado.

Quem não bebe pode ter gordura no fígado?

Sim. A forma metabólica da doença é definida pela presença de fatores de risco cardiometabólicos, como excesso de peso, glicose alta, pressão alta, triglicérides altos ou HDL baixo, na ausência de consumo nocivo de álcool.

Semaglutida é aprovada para gordura no fígado?

Em dezembro de 2025, a Anvisa aprovou o Wegovy (semaglutida 2,4 mg) para adultos sem cirrose com esteato-hepatite e fibrose moderada a avançada. Se o tratamento é adequado para o seu caso é uma decisão da consulta médica.

E a tirzepatida?

A tirzepatida foi testada contra a esteato-hepatite num ensaio de fase 2 com 190 participantes, publicado em 2024, com melhora na biópsia após 52 semanas. Os próprios autores afirmam que são necessários estudos maiores e mais longos para avaliar eficácia e segurança nessa indicação.

Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica, diagnóstico ou prescrição individual.