Fezolinetanto: o que é e para que serve

Picture of Dra. Nathalia Danelli

Dra. Nathalia Danelli

7 de outubro de 2026

Fezolinetanto: o que é e para que serve

O fezolinetanto é um medicamento não hormonal indicado para o tratamento dos sintomas vasomotores moderados a intensos da menopausa, os fogachos. A Anvisa autorizou seu registro no Brasil em 23 de junho de 2026, com o nome comercial Veoza, pela Resolução 2.430/2026. É o primeiro medicamento aprovado no país para fogachos que não é hormônio e não repõe estrogênio. Ele atua como antagonista seletivo do receptor de neuroquinina 3, uma via do sistema nervoso central.

Por que um remédio não hormonal para fogachos importa?

Porque existe um grupo de mulheres com poucas opções. A publicação do ensaio SKYLIGHT 1, na revista Lancet, abre explicando exatamente isso: as alternativas são escassas para quem não pode ou não quer fazer terapia hormonal. Até esse registro, a conversa no consultório girava entre terapia hormonal, medidas comportamentais e medicamentos usados fora da indicação original.

Isso não transforma o fezolinetanto em substituto da terapia hormonal nem em primeira escolha para todas. Significa que passou a existir uma opção com ensaio de fase 3 publicado para um cenário que antes dependia de improviso. A terapia hormonal na menopausa continua sendo um caminho distinto, com indicações e contraindicações próprias.

Quanto o fezolinetanto reduz os fogachos?

Cerca de dois a dois episódios e meio por dia a mais que o placebo, em mulheres que começaram com pelo menos sete episódios diários. O SKYLIGHT 1 foi um ensaio de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido em 97 centros nos Estados Unidos, Canadá, República Tcheca, Hungria, Polônia, Espanha e Reino Unido. Participaram mulheres de 40 a 65 anos com média de sete ou mais fogachos moderados a intensos por dia, sorteadas para placebo ou para um dos dois braços de dose do medicamento.

Na semana 12, a diferença de redução de frequência em relação ao placebo foi de 2,39 episódios por dia em um braço e 2,55 no outro. Na semana 4, foi de 1,87 e 2,07. A intensidade dos episódios também caiu mais que no placebo, com diferenças menores em magnitude. A melhora apareceu já na primeira semana e se manteve ao longo de 52 semanas.

Esse resultado se repetiu em outro ensaio?

Sim. O SKYLIGHT 2, publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, usou o mesmo desenho e a mesma população. Na semana 12, a redução de frequência em relação ao placebo foi de 1,86 episódios por dia em um braço e 2,53 no outro. Na semana 4, 1,82 e 2,55. A melhora também apareceu na primeira semana e se manteve até a semana 52.

Vale ler esses números com honestidade. São dois ensaios de fase 3 independentes com resultado consistente, o que é um sinal forte de que o efeito existe. E o tamanho do efeito é de aproximadamente dois episódios por dia acima do que o placebo entregou, em mulheres que tinham sete ou mais. É um ganho real e é um ganho parcial. Quem promete fim dos fogachos está indo além do que os dados sustentam.

E a segurança para o fígado?

Existe um sinal hepático, reconhecido pelas agências reguladoras, e ele merece atenção. O SKYLIGHT 4, publicado na Obstetrics and Gynecology, foi um estudo de segurança de 52 semanas com 1.830 participantes randomizadas e que receberam ao menos uma dose. Elevações de enzimas hepáticas acima de três vezes o limite superior da normalidade ocorreram em 6 de 583 participantes no placebo, 8 de 590 em um braço de dose e 12 de 589 no outro. Nenhum caso preencheu os critérios de lesão hepática grave.

No mesmo estudo, eventos adversos ocorreram em 64,1% do grupo placebo, 67,9% de um braço e 63,9% do outro, e as interrupções por evento adverso foram semelhantes entre os grupos. Hiperplasia endometrial ocorreu em 1 de 203 participantes em um braço e câncer de endométrio em 1 de 210 em outro, sem casos no placebo. Densidade mineral óssea e escore trabecular ósseo foram semelhantes entre os grupos.

O que os dados de uso real mostram sobre o fígado?

Mostram um sinal mais amplo do que os ensaios captaram. Uma análise de desproporcionalidade publicada em 2026 na Naunyn-Schmiedeberg’s Archives of Pharmacology examinou a base de notificações de eventos adversos do FDA entre o segundo trimestre de 2023 e o primeiro trimestre de 2026, com 1.757 casos únicos e 3.391 eventos adversos em que o fezolinetanto era o suspeito principal.

As alterações laboratoriais hepáticas apareceram entre os sinais mais fortes, incluindo aumento de ALT, AST, gama GT, fosfatase alcalina e bilirrubina. O tempo mediano até o evento foi de 38 dias, e a maioria ocorreu nos primeiros 100 dias de tratamento. Análise de desproporcionalidade detecta sinal em base de notificação espontânea: ela não estabelece causa nem mede incidência, porque não tem denominador de pacientes expostos. O que ela indica é onde olhar, e aqui ela aponta para o início do tratamento.

Então é preciso monitorar o fígado?

O monitoramento de função hepática faz parte da prescrição desse medicamento, e o esquema é definido por quem prescreve, com base na bula aprovada. Este texto não estabelece periodicidade de exame nem conduta individual: essa é a parte que pertence à consulta.

O que vale levar daqui é o padrão temporal. Se o sinal se concentra nos primeiros 100 dias, com mediana de 38 dias, o início do tratamento é o período de maior atenção, e sintomas como náusea persistente, urina escura, dor no quadrante superior direito do abdome, cansaço desproporcional ou amarelamento dos olhos são motivo para contato imediato com quem prescreveu, não para esperar a próxima consulta de rotina.

O fezolinetanto substitui a terapia hormonal?

Não existe, entre os ensaios abertos para este texto, comparação direta entre fezolinetanto e terapia hormonal. Os três ensaios de fase 3 descritos aqui foram controlados por placebo, não por hormônio. Ausência de comparação não significa equivalência nem inferioridade: significa que a pergunta não foi respondida por ensaio randomizado.

Na prática, isso torna a escolha mais clínica e menos automática. Terapia hormonal e fezolinetanto têm perfis de risco diferentes, indicações diferentes e contraindicações diferentes, e a comparação entre eles, hoje, se faz caso a caso. Por que mulheres respondem de forma distinta a cada caminho é um assunto tratado em respostas individuais à terapia hormonal.

O que ainda não se sabe sobre o fezolinetanto?

Quatro lacunas importam. A primeira é tempo: o maior estudo de segurança publicado cobre 52 semanas, e o que acontece depois disso não está medido em ensaio. A segunda é desfecho duro: os ensaios mediram frequência e intensidade de fogachos, não eventos cardiovasculares, fraturas ou incidência de câncer ao longo de anos.

A terceira é população: as participantes tinham entre 40 e 65 anos, e mulheres fora dessa faixa não foram estudadas nesses ensaios. A quarta é o resto do quadro da menopausa. Os próprios autores do SKYLIGHT 1 escreveram que o benefício sobre qualidade de vida, humor e bem estar sexual merece investigação, o que é outra forma de dizer que ainda não foi demonstrado. Sono é um exemplo: queixa comum na menopausa, com causas que incluem apneia obstrutiva do sono e que não se resolvem tratando fogacho.

Quando levar o assunto à consulta?

Quando os fogachos interferem no sono, no trabalho ou na vida social, e principalmente quando a terapia hormonal não é uma opção por contraindicação ou por decisão informada da própria mulher. O fezolinetanto é medicamento de prescrição, com sinal hepático conhecido e monitoramento previsto, e não é produto de automedicação.

Também vale lembrar que fogacho é um sintoma entre vários na transição menopausal, e que avaliar só ele deixa de fora composição corporal, pressão, perfil metabólico e densidade óssea. Esse conjunto é o que se olha no acompanhamento no climatério e na menopausa. Outros conteúdos sobre o tema, incluindo testosterona em mulheres e a revisão das advertências da terapia hormonal pelo FDA, estão em menopausa e reposição hormonal.

Perguntas frequentes

O fezolinetanto é hormônio?

Não. Ele é um antagonista seletivo do receptor de neuroquinina 3, que atua em uma via do sistema nervoso central. Não repõe estrogênio nem progesterona, e por isso é descrito nos ensaios como tratamento não hormonal dos sintomas vasomotores da menopausa.

Quanto tempo o fezolinetanto leva para funcionar?

Nos ensaios SKYLIGHT 1 e SKYLIGHT 2, a melhora na frequência e na intensidade dos fogachos foi observada já na primeira semana de tratamento e se manteve ao longo de 52 semanas. A diferença em relação ao placebo foi medida formalmente nas semanas 4 e 12.

O fezolinetanto emagrece?

Não há ensaio clínico, entre as fontes abertas para este texto, que tenha medido peso corporal ou composição corporal como desfecho do fezolinetanto. Os ensaios de fase 3 avaliaram frequência e intensidade de fogachos, segurança endometrial, enzimas hepáticas e densidade óssea. Quem oferece o medicamento como recurso para emagrecer está indo além do que os dados sustentam.

O fezolinetanto causa problema no fígado?

Existe um sinal hepático reconhecido. No estudo de segurança de 52 semanas com 1.830 participantes, elevações de enzimas hepáticas acima de três vezes o limite da normalidade ocorreram em 12 de 589 e em 8 de 590 participantes nos braços de tratamento, contra 6 de 583 no placebo, sem casos de lesão hepática grave. Em dados de uso real, as alterações hepáticas estiveram entre os sinais mais frequentes, com tempo mediano de 38 dias. O monitoramento é definido por quem prescreve.

O fezolinetanto pode ser usado por tempo indeterminado?

Os dados publicados cobrem até 52 semanas de uso. O que acontece depois desse período não foi medido em ensaio clínico entre as fontes abertas para este texto. Ausência de evidência não é prova de dano, e também não é prova de segurança: a duração do tratamento é uma decisão de acompanhamento médico.