Testosterona em mulheres

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Dra. Nathalia Danelli

24 de setembro de 2026

Testosterona em mulheres

A testosterona é um hormônio produzido também pelo corpo feminino, nos ovários e nas glândulas adrenais, em concentrações muito menores que as masculinas. A única indicação com respaldo em evidência para repor testosterona em mulheres é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, conforme o consenso global publicado em 2019 e endossado por onze sociedades médicas internacionais. Para qualquer outro sintoma, os dados disponíveis são insuficientes.

O tema voltou ao debate em 17 de setembro de 2026, quando o FDA, a agência reguladora americana, realizou uma audiência pública dedicada ao uso de testosterona em mulheres na menopausa. A agência reconheceu que não existe nenhum produto de testosterona aprovado especificamente para mulheres nos Estados Unidos e sinalizou disposição de conversar com fabricantes interessados em desenvolver um. No Brasil a situação é a mesma: a prescrição é off-label.

O que a testosterona faz no corpo da mulher?

A testosterona circula no organismo feminino ao longo de toda a vida adulta. Ela pode agir diretamente no receptor androgênico, ser convertida em di-hidrotestosterona, um androgênio mais potente, ou ser aromatizada em estradiol. Essa conversão dentro dos próprios tecidos é o que torna a fisiologia dos androgênios na mulher difícil de medir e de interpretar. O consenso global de 2019 registra que a associação entre os níveis de androgênios que uma mulher produz e a função sexual dela permanece incerta, por limitações dos ensaios laboratoriais e por falta de dados. Saber que o hormônio está presente e é ativo não é o mesmo que saber qual nível seria o ideal para cada mulher.

A testosterona cai na menopausa?

Não da forma como se costuma dizer. O consenso global classifica como evidência de nível IIB que as concentrações de testosterona caem ao longo dos anos reprodutivos, ou seja, de maneira gradual e muito antes da última menstruação. O mesmo documento registra que as concentrações parecem se manter em mulheres acima dos 65 anos, e que ainda não se sabe se isso traz algum benefício. A menopausa é um evento de estrogênio e progesterona, não um desligamento súbito da testosterona. Quem retira os ovários cirurgicamente é exceção, porque perde de uma vez uma fonte de produção. A distinção importa, porque parte do que se atribui à testosterona baixa da menopausa tem outra causa.

Existe exame que diagnostica testosterona baixa na mulher?

Não existe ponto de corte. O consenso global é explícito: nenhum nível sanguíneo de androgênio serve para separar mulheres com e sem disfunção sexual, e a dosagem de testosterona total não deve ser usada para diagnosticar o transtorno do desejo sexual hipoativo. Há ainda um problema técnico. Os ensaios diretos de testosterona total e livre são classificados como altamente não confiáveis na faixa feminina, com grau A de recomendação. Os métodos confiáveis são a cromatografia líquida ou gasosa com espectrometria de massas em tandem. Quando o exame é pedido antes de um tratamento, a finalidade é excluir níveis já elevados, não confirmar uma carência.

Para que a reposição de testosterona tem evidência?

Para uma indicação apenas. A meta-análise que deu base ao consenso reuniu 36 ensaios clínicos randomizados e 8.480 participantes. Comparada a placebo ou a um comparador, a testosterona melhorou de forma significativa o desejo sexual, a excitação, o orgasmo, o prazer, a autoimagem e a frequência de eventos sexuais satisfatórios em mulheres na pós-menopausa, além de reduzir o sofrimento associado. O painel descreve o efeito terapêutico como moderado. O diagnóstico, porém, não sai de um exame de sangue: exige avaliação biopsicossocial completa, porque a queixa de desejo tem causas que vão de doença física e medicamentos em uso a contexto afetivo e história pessoal.

E para disposição, massa muscular, memória e osso?

Aqui é preciso ser direto: não há evidência suficiente. O consenso global afirma que os dados são insuficientes para sustentar o uso de testosterona no tratamento de qualquer outro sintoma ou condição clínica, e também para prevenção de doenças. A meta-análise não encontrou efeito sobre composição corporal, variáveis musculoesqueléticas ou medidas cognitivas, ainda que o número de mulheres avaliadas nesses desfechos fosse pequeno. Plausibilidade biológica não é desfecho clínico comprovado. O próprio painel listou a necessidade de novos ensaios randomizados com poder estatístico adequado para osso, massa magra, força e cognição. Até que existam, quem promete disposição, ganho muscular ou proteção da memória com testosterona está indo além do que os dados sustentam.

O que se sabe sobre segurança?

As meta-análises não registraram eventos adversos graves com testosterona em doses fisiológicas, com uma ressalva importante: mulheres de alto risco cardiometabólico foram excluídas dos estudos. Os efeitos mais relatados foram acne e aumento de pelos. A via de administração importa. Por via oral, a testosterona elevou o LDL e reduziu o colesterol total, o HDL e os triglicerídeos; pelas vias não orais, como adesivo ou creme transdérmico, o perfil lipídico ficou neutro. Também foi registrado aumento de peso no conjunto dos estudos. A segurança do uso prolongado não está estabelecida. Ausência de evidência de dano não é prova de segurança.

Por que os implantes manipulados são um problema?

Porque entregam concentrações acima da faixa fisiológica feminina e não permitem interromper o tratamento depois de inseridos. O consenso global recomenda contra qualquer preparação que resulte em concentrações suprafisiológicas, incluindo implantes e injeções, e também contra a testosterona manipulada como bioidêntica, por falta de evidência de eficácia e segurança. O posicionamento da Associação Latino-Americana de Endocrinologia Ginecológica, publicado em 2025, repete as duas recomendações e prefere as formulações transdérmicas. No Brasil, a Anvisa proibiu a manipulação de hormônios implantáveis pela Resolução RE 3.915, de 18 de outubro de 2024, citando gestrinona, testosterona e oxandrolona, e alertou para riscos como dislipidemia, hipertensão, arritmia cardíaca, hirsutismo, alopecia e engrossamento da voz.

O que a regra brasileira diz sobre prescrever testosterona?

A Resolução CFM 2.333, de 2023, proíbe o uso de testosterona sem diagnóstico comprovado de deficiência e veda o emprego de hormônios androgênicos com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de melhora de desempenho esportivo. A reposição segue permitida quando existe deficiência específica comprovada, com nexo causal e evidência científica de benefício. Uma pesquisa com 1.213 ginecologistas brasileiros, publicada na revista Menopause em 2026, mostra a distância entre a norma e a prática: 93,9% prescreviam testosterona em géis ou cremes manipulados e 38% usavam apresentações destinadas a homens. A maioria, 72%, defendeu que passe a existir um produto aprovado para mulheres.

Como o assunto é conduzido na consulta

O ponto de partida não é o exame, é a queixa. Quando há perda de desejo que causa sofrimento, a avaliação procura o que está por trás: sono, medicamentos em uso, dor na relação, sintomas de estrogênio baixo, tireoide, quadro afetivo e contexto do relacionamento. Se a indicação se confirma, a conversa inclui dizer com todas as letras que o uso é off-label no Brasil, qual via será utilizada, como o acompanhamento será feito e em quanto tempo a decisão de manter ou suspender será revista. O consenso global orienta encerrar o tratamento caso não haja benefício em seis meses. Dose e esquema são definidos caso a caso, em consulta.

Perguntas frequentes

Testosterona engorda ou emagrece a mulher?

A meta-análise de 36 ensaios randomizados registrou aumento de peso no conjunto dos estudos e não encontrou efeito sobre composição corporal. Não há base para indicar testosterona como tratamento de emagrecimento em mulheres.

Testosterona baixa causa cansaço?

Não há evidência suficiente para afirmar isso. O consenso global de 2019 diz que os dados não sustentam o uso de testosterona para nenhum sintoma além do transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa. Cansaço persistente merece investigação, e ela costuma apontar para outras causas.

Preciso dosar testosterona no sangue para saber se devo repor?

Não. Nenhum ponto de corte laboratorial define quem tem ou não disfunção sexual, e a dosagem não faz o diagnóstico. O exame antes do tratamento serve para excluir níveis já elevados; durante o tratamento, para evitar que passem da faixa fisiológica.

Implante hormonal manipulado é a mesma coisa que repor testosterona?

Não. A manipulação de hormônios implantáveis está proibida no Brasil desde outubro de 2024, e as diretrizes internacionais recomendam contra preparações que levem a concentrações acima da faixa fisiológica feminina, incluindo implantes e injeções.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A indicação, a via e o acompanhamento de qualquer terapia hormonal são individuais.