Retatrutida: o que mostram os estudos

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Dra. Nathalia Danelli

6 de outubro de 2026

Retatrutida: o que mostram os estudos

A retatrutida é uma molécula injetável em desenvolvimento para o tratamento da obesidade, que age ao mesmo tempo em três receptores: GIP, GLP-1 e glucagon. Ela ainda não é um medicamento disponível: está em fase 3 de pesquisa, e os primeiros resultados revisados por pares foram publicados no fim de setembro de 2026, com redução média de peso de 25% na dose mais alta em 80 semanas.

Quanto peso a retatrutida fez perder no estudo de fase 3?

No estudo TRIUMPH-1, publicado no New England Journal of Medicine, 2.339 adultos com obesidade e sem diabetes receberam retatrutida ou placebo, em injeção semanal, por 80 semanas. A redução média de peso corporal foi de 17,6% com a dose de 4 mg, 23,7% com 9 mg e 25,0% com 12 mg, contra 3,9% no grupo placebo. A diferença em relação ao placebo chegou a 21 pontos percentuais na dose mais alta. Esses são os números da análise por intenção de tratar, que considera todos os participantes sorteados, tenham eles concluído o tratamento ou não. É a análise principal do estudo e é a referência correta para comparar com outros medicamentos.

De onde vem o número de 30% que apareceu na imprensa?

Não vem do artigo publicado. A publicação revisada por pares registra 25,0% na dose de 12 mg. Antes dela, comunicados da fabricante já descreviam reduções maiores: uma revisão publicada em agosto de 2026 registra que os resultados então divulgados pela empresa, ainda sem revisão por pares, falavam em até 28,7%. Foi desse valor que saíram as manchetes arredondadas para 30%. A diferença não é detalhe de casa decimal. Resultado anunciado por comunicado e resultado publicado, com métodos e dados abertos à checagem de outros pesquisadores, não têm o mesmo peso. Quando os dois existem, vale o publicado.

A retatrutida funciona em quem tem diabetes tipo 2?

Sim, com números menores. No TRIUMPH-2, publicado no Lancet, 1.152 adultos com obesidade e diabetes tipo 2 foram acompanhados por 80 semanas. A perda média de peso foi de 11,9% com 4 mg, 16,8% com 9 mg e 18,8% com 12 mg, contra 5,1% no placebo. Em outro estudo de fase 3, o TRANSCEND-T2D-1, com 537 adultos que controlavam o diabetes apenas com dieta e exercício, a hemoglobina glicada caiu 1,94 ponto percentual na dose de 12 mg em 40 semanas, contra 0,81 ponto no placebo. A perda de peso nesse grupo foi de 15,3%. Se você está acompanhando seu controle glicêmico, vale entender o que a hemoglobina glicada mostra.

O estudo mediu algo além do peso?

Mediu, e essa é a parte mais interessante do TRIUMPH-1. Entre os 574 participantes que tinham artrose de joelho, a dor avaliada pela escala WOMAC caiu 3,6 pontos na dose de 12 mg, contra 1,9 ponto no placebo. Entre os 243 que tinham apneia obstrutiva do sono, o índice de apneia e hipopneia caiu 34,3 eventos por hora na dose de 9 mg, contra 9,9 no placebo. São desfechos que o paciente sente no dia a dia, não marcadores de laboratório. Ainda assim, os dois foram medidos em subgrupos pequenos dentro do estudo, e subgrupo tem menos força estatística do que o desfecho principal.

Quais efeitos adversos apareceram?

Os mais frequentes foram gastrointestinais. No TRIUMPH-2, diarreia ocorreu em 27% a 34% dos participantes que usaram retatrutida, contra 13% no placebo, e náusea em 14% a 28%, contra 8%. Dois sinais menos esperados também foram mais comuns com a medicação: queda de pressão, em 1% a 6% dos participantes contra menos de 1% no placebo, e disestesia, que é uma alteração desagradável de sensibilidade na pele, em 4% a 7% contra 1%. A interrupção definitiva do tratamento por efeito adverso chegou a 12% na dose de 9 mg. Houve seis mortes entre quem usou retatrutida e uma no placebo, todas consideradas não relacionadas ao estudo pelos investigadores.

Dá para comprar retatrutida hoje?

Não como medicamento. Os próprios estudos de fase 3 publicados em 2026 descrevem a retatrutida como molécula em desenvolvimento clínico, e não existe produto aprovado com essa substância. A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, inclui a retatrutida entre as substâncias que não podem ser usadas em manipulação e afirma que ela não foi considerada segura e eficaz para nenhuma condição. A mesma agência alerta contra produtos vendidos com rótulo de uso em pesquisa ou não destinado ao consumo humano, mas comercializados com instrução de dose. Não use retatrutida obtida por esse caminho. Tratamento de obesidade com medicação existe, é regulado e passa por avaliação médica individual.

O que ainda não se sabe sobre a retatrutida

Falta justamente o que mais importa em obesidade: desfecho de longo prazo. Os estudos publicados têm de 40 a 80 semanas de duração e mediram peso, dor no joelho, apneia do sono e controle glicêmico. Nenhum deles foi desenhado para medir infarto, acidente vascular cerebral ou mortalidade, e nenhum acompanhou o que acontece com o peso depois que a medicação é suspensa. Também não há resultado publicado sobre o efeito da retatrutida na massa muscular, questão que já aparece com os análogos de GLP-1 e que vale acompanhar, como discutido em sarcopenia induzida por GLP-1. Eficácia em 80 semanas não responde o que acontece em cinco anos.

Como a retatrutida se compara com o que já existe?

A comparação direta ainda não foi feita. Nenhum estudo publicado colocou retatrutida frente a frente com semaglutida ou tirzepatida no mesmo desenho, e comparar porcentagens entre estudos diferentes é um atalho que engana: as populações, as durações e os critérios de análise não são os mesmos. O que se pode dizer é que a retatrutida acrescenta um terceiro alvo, o receptor de glucagon, às duas vias já exploradas pelos medicamentos aprovados. Outras moléculas estão na mesma corrida, como o orforglipron, de uso oral. Na prática, a escolha de tratamento hoje se faz entre o que já tem registro, incluindo a semaglutida genérica.

Perguntas frequentes sobre retatrutida

A retatrutida é melhor que o Mounjaro?

Não há estudo que compare as duas diretamente. Nos estudos de fase 3 da retatrutida, a redução média de peso foi de 25,0% em 80 semanas na dose mais alta, em pessoas com obesidade e sem diabetes. Comparar esse número com o de outro medicamento testado em outro estudo, com outra população e outro tempo de seguimento, não é uma comparação válida.

Quando a retatrutida chega ao Brasil?

Não há data. A molécula está em fase 3 de pesquisa e não existe produto aprovado com essa substância. Qualquer previsão de chegada ao mercado brasileiro hoje é especulação, porque depende da submissão do fabricante e da análise da agência reguladora.

Retatrutida manipulada é segura?

Não. A FDA inclui a retatrutida entre as substâncias que não podem ser usadas em manipulação e registra que ela não foi considerada segura e eficaz para nenhuma condição. Produto vendido com rótulo de uso em pesquisa não passou por avaliação de qualidade, pureza ou dose.

Quais são os efeitos colaterais da retatrutida?

Nos estudos, os mais comuns foram gastrointestinais: diarreia em até 34% dos participantes e náusea em até 28%. Também foram mais frequentes que no placebo a queda de pressão arterial e a disestesia, uma alteração de sensibilidade na pele. Até 12% dos participantes interromperam o tratamento de forma definitiva por efeito adverso.

A retatrutida serve para quem não tem obesidade?

Os estudos de fase 3 incluíram adultos com obesidade, ou com sobrepeso acompanhado de outra condição, ou com diabetes tipo 2. Não há dado publicado sobre uso em quem está fora desses critérios, e a indicação de qualquer tratamento de peso é definida em consulta, caso a caso.

Conteúdo informativo, sem substituir avaliação individual. Veja mais em Emagrecimento e GLP-1.