Osteoporose na menopausa

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Dra. Nathalia Danelli

9 de outubro de 2026

Osteoporose na menopausa

Osteoporose é a doença em que o osso perde massa e resistência e passa a fraturar com traumas pequenos. Na menopausa ela ganha velocidade, porque a queda do estrogênio acelera a perda óssea, e a maior parte dessa perda acontece numa janela estreita em torno da última menstruação. No Brasil, dados da coorte ELSA-Brasil encontraram osteoporose em 18,6% das mulheres na pós-menopausa avaliadas por densitometria. Esta página explica o que a doença é, o que muda no osso na transição menopausal, o que a terapia hormonal faz e o que ela não faz pelo risco de fratura, e por que densidade óssea e decisão de tratamento não são a mesma conversa.

Por que a menopausa acelera a perda de osso?

O estudo que mediu isso com mais precisão foi o SWAN, que acompanhou 862 mulheres de quatro origens étnicas antes e depois da última menstruação. A perda de densidade óssea começou um ano antes da última menstruação e desacelerou, sem parar, dois anos depois dela. Esse intervalo, de um ano antes a dois anos depois, foi batizado pelos autores de transmenopausa, e é onde a perda se concentra. Em dez anos de observação, a coluna lombar perdeu 10,6% de densidade, e 7,38% desse total saiu na transmenopausa. No colo do fêmur, a perda acumulada foi de 9,1%, com 5,8% na mesma janela. Os resultados foram publicados no Journal of Bone and Mineral Research.

A perda é igual para todas as mulheres?

Não. No mesmo estudo, índice de massa corporal mais alto e ascendência afro-americana se associaram a perda mais lenta, e ascendência japonesa e chinesa, a perda mais rápida. Isso é associação observada numa coorte, não causa estabelecida, e a amostra era norte-americana. Mas é um achado que importa aqui: significa que a velocidade da perda óssea não é a mesma para todas, e que a composição corporal entra na conta. Na coorte brasileira ELSA-Brasil, com 1.316 participantes avaliados por densitometria, a massa magra apareceu associada de forma inversa à osteoporose em homens e em mulheres com índice de massa corporal igual ou acima de 30, e associada de forma positiva à densidade óssea em mulheres na pós-menopausa com índice igual ou acima de 25.

Quantas mulheres têm osteoporose depois da menopausa?

Na mesma análise do ELSA-Brasil, publicada em 2026 no Journal of the Endocrine Society, a osteoporose estava presente em 18,6% das mulheres na pós-menopausa e em 8% dos homens com 50 anos ou mais. É um dado brasileiro, obtido por densitometria em participantes de uma coorte de funcionários públicos, e não uma estimativa populacional do país. Vale pelo que é: uma ordem de grandeza aferida aqui, com o mesmo método usado no consultório. Os autores também notaram que, em mulheres na pós-menopausa com índice de massa corporal abaixo de 25, a massa de gordura se associou positivamente à densidade óssea, o que ajuda a explicar por que magreza acentuada é fator de risco reconhecido para osso frágil.

A terapia hormonal protege o osso?

Essa é uma das poucas perguntas sobre terapia hormonal com resposta de ensaio randomizado grande. A revisão Cochrane de terapia hormonal de longo prazo, atualizada em setembro de 2026, reuniu 24 estudos e 45.660 participantes. No braço de terapia combinada do Women’s Health Initiative, com 16.608 mulheres acompanhadas por 5,6 anos em média, o risco de fratura clínica foi 22% menor que com placebo (risco relativo 0,78; intervalo de confiança de 95%: 0,71 a 0,86), com certeza moderada. No braço de estrogênio isolado, com 10.739 mulheres histerectomizadas seguidas por sete anos, a redução foi de 27% (risco relativo 0,73; 0,65 a 0,80). A análise específica de fraturas do mesmo estudo, publicada na JAMA em 2003, encontrou fratura em 8,6% das usuárias e 11,1% das que receberam placebo.

Então a terapia hormonal é tratamento para osteoporose?

Aqui a resposta muda de tom, e o próprio estudo que mostrou a proteção é quem muda. Na publicação de 2003 na JAMA, a densidade óssea do quadril subiu 3,7% em três anos com terapia combinada, contra 0,14% com placebo. Mas, quando os autores somaram num índice global os outros desfechos relevantes do ensaio, não houve benefício líquido, nem mesmo nas mulheres classificadas como de risco alto de fratura. A revisão Cochrane de 2026 mostra o outro lado da conta no mesmo braço: aumento de câncer de mama (risco relativo 1,27; 1,03 a 1,56), de acidente vascular cerebral (1,39; 1,09 a 2,09) e de tromboembolismo venoso (2,03; 1,55 a 6,64). Proteger o osso é um efeito real da terapia hormonal. Não é, por si só, a razão para indicá-la.

Por que esses números não se aplicam direto a quem tem 50 anos?

Porque a população estudada não é essa. A limitação central apontada pelos próprios autores da revisão Cochrane é que apenas cerca de 30% das participantes tinham entre 50 e 59 anos no início, e a idade média na maioria dos estudos passava de 60. Justamente a faixa que mais considera terapia hormonal para sintomas é a menos representada. Além disso, os resultados vêm de terapia hormonal oral, em formulações que podem não representar o que se prescreve hoje, e os autores pedem cautela por isso. Ausência de evidência nessa faixa não é prova de dano nem prova de segurança: é o que falta medir, e é por isso que a decisão é individual e precisa de avaliação.

O que apareceu em congresso em 2026?

Em junho de 2026, no encontro anual da sociedade americana de endocrinologia, foi apresentado um estudo com 387 mulheres na pós-menopausa que fizeram densitometria entre 2021 e 2025: densidade óssea baixa foi encontrada em 31,8% das usuárias de terapia hormonal e em 56,2% das não usuárias. Dois cuidados são obrigatórios aqui. Primeiro, é um resumo de congresso, não um artigo revisado por pares, e a publicação primária não foi localizada: tratem como achado preliminar. Segundo, os próprios pesquisadores disseram que o desenho não permite atribuir a diferença à terapia hormonal, porque quem usa hormônio pode também ter mais acompanhamento médico, mais atividade física e melhor alimentação. Associação não é causa, e esse estudo não foi feito para separar as duas coisas.

Perguntas frequentes

Toda mulher na menopausa vai ter osteoporose?

Não. A perda de densidade óssea na transição menopausal é esperada, mas ter osteoporose é outra coisa. Na coorte brasileira ELSA-Brasil, a osteoporose foi encontrada em 18,6% das mulheres avaliadas na pós-menopausa, o que significa que a maioria não tinha a doença.

Qual exame diagnostica osteoporose?

A densitometria óssea, feita por absorciometria de raios X de dupla energia, é o exame usado nos estudos citados nesta página e é o método de referência na prática. Ele mede a densidade mineral em locais como coluna lombar e quadril. A interpretação do resultado e a necessidade do exame são definidas em consulta.

A terapia hormonal reduz fratura?

Sim, nos ensaios randomizados do Women’s Health Initiative, sintetizados pela revisão Cochrane de 2026: risco relativo de 0,78 para terapia combinada e de 0,73 para estrogênio isolado, ambos com certeza moderada. No mesmo ensaio, porém, o balanço global de riscos e benefícios não mostrou vantagem líquida, e houve aumento de câncer de mama, acidente vascular cerebral e tromboembolismo no braço combinado.

Osso perdido na menopausa volta?

A densidade óssea pode subir com tratamento: na análise de 2003 do Women’s Health Initiative, a densidade do quadril aumentou 3,7% em três anos de terapia combinada. Recuperar densidade, no entanto, não é o mesmo que devolver a resistência do osso de antes, e o desfecho que importa é fratura, não o número do exame.

Musculação ajuda o osso na menopausa?

Os dados brasileiros do ELSA-Brasil mostram massa magra associada a melhor densidade óssea em parte dos grupos avaliados, mas é um estudo transversal: ele mostra associação, não prova que ganhar músculo aumenta o osso. Treino de força tem outras razões sólidas para ser recomendado na menopausa, e vale discutir o programa adequado em consulta.

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Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou prescrição. Avaliação e conduta dependem de consulta médica.