Melatonina: para que serve e quando funciona

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Dra. Nathalia Danelli

30 de setembro de 2026

Melatonina: para que serve e quando funciona

A melatonina é o hormônio que o corpo produz no fim do dia para sinalizar que é noite, e o suplemento tem evidência bem mais consistente para ajustar o horário do sono do que para tratar insônia. Em jet lag e no atraso de fase do sono, ela funciona. Na insônia crônica, o efeito medido nos ensaios clínicos é de poucos minutos, e a diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono sugere não usá-la com essa finalidade. No Brasil, a melatonina é autorizada apenas como suplemento alimentar para adultos, no limite de 0,21 mg por dia, e não tem indicação aprovada como medicamento para insônia.

O que é a melatonina e o que ela faz no corpo?

A melatonina é produzida pela glândula pineal a partir do momento em que a luz do ambiente diminui. Ela não é um sedativo: não “apaga” o cérebro como um hipnótico faz. O que ela faz é informar ao relógio biológico em que ponto do ciclo de 24 horas o corpo está, o que empurra o sono e a vigília para determinados horários.

Essa diferença explica quase tudo o que vem depois. Um remédio que induz sono age sobre a intensidade do sono. A melatonina age sobre o horário. Por isso o mesmo suplemento pode ser útil para quem viajou seis fusos horários ou para quem só consegue dormir às 3 da manhã, e ser decepcionante para quem acorda às 4 e não volta a dormir. São problemas diferentes.

A melatonina funciona para insônia?

Funciona pouco. A meta-análise de referência sobre o tema, conduzida por Ferracioli-Oda e colaboradores e publicada na PLoS One em 2013, reuniu 19 ensaios randomizados com 1.683 pessoas. A melatonina reduziu o tempo para pegar no sono em 7,06 minutos (intervalo de confiança de 95%: 4,37 a 9,75) e aumentou o tempo total de sono em 8,25 minutos (IC 95%: 1,74 a 14,75) em comparação com placebo. A qualidade do sono melhorou de forma pequena, mas estatisticamente consistente.

São resultados reais e são pequenos. Os próprios autores descrevem o efeito como modesto e menor do que o dos medicamentos usados para insônia. Em 2017, ao revisar o tratamento farmacológico da insônia crônica em adultos, a diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono (Sateia e colaboradores, Journal of Clinical Sleep Medicine) concluiu sugerindo que os médicos não usem melatonina para insônia de início ou de manutenção do sono, uma recomendação classificada como fraca, baseada na certeza limitada da evidência.

Em quais situações a melatonina tem evidência a favor?

Em duas, com clareza. A primeira é o jet lag. A revisão Cochrane de Herxheimer e Petrie analisou dez ensaios randomizados: nove deles mostraram redução do jet lag quando a melatonina foi tomada perto do horário de dormir no destino, em voos que cruzam cinco ou mais fusos horários. O número necessário para tratar foi 2, o que é um efeito grande. A mesma revisão registra que o horário da tomada é decisivo: tomada cedo demais, ela causa sonolência e atrasa a adaptação ao fuso local.

A segunda são os transtornos do ritmo circadiano. A diretriz de 2015 da Academia Americana de Medicina do Sono (Auger e colaboradores) endossa a melatonina em horário estrategicamente programado para o transtorno de atraso da fase do sono, para adultos cegos com ritmo de sono e vigília não de 24 horas, e para crianças e adolescentes com ritmo irregular associado a doenças neurológicas. A mesma diretriz recomenda contra o uso em idosos com demência.

A melatonina melhora o sono na menopausa?

A evidência disponível diz que não. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na revista Menopause em 2021, por Yi e colaboradores, reuniu oito ensaios randomizados com 812 mulheres na perimenopausa e na pós-menopausa. A melatonina não melhorou a qualidade do sono (diferença média padronizada de -0,659; IC 95%: -1,535 a 0,217; p = 0,141), nem os sintomas gerais da menopausa, nem ansiedade, nem depressão, nem os níveis de estradiol, nem o índice de massa corporal. Houve melhora apenas em um desfecho de sintomas físicos, em quatro dos ensaios.

Um ensaio randomizado dinamarquês publicado em 2024 na Complementary Therapies in Medicine, com 41 mulheres na pós-menopausa acompanhadas por três meses, chegou ao mesmo lugar: nenhuma diferença em qualidade do sono, pressão arterial ou rigidez arterial em relação ao placebo. Isso importa porque o sono da menopausa costuma piorar por calor noturno, despertares e oscilação hormonal, e não por um atraso do relógio biológico. A melatonina não age onde o problema está.

Melatonina emagrece?

Não há evidência clínica que sustente isso. O que existe são estudos em animais e dados laboratoriais sobre efeitos da melatonina no tecido adiposo, que sugerem um mecanismo. E mecanismo não é resultado.

Em humanos, o ensaio randomizado mais citado sobre o tema acompanhou 38 adultos com sobrepeso ou obesidade grau I por 12 semanas, todos em dieta de redução de peso. Os próprios autores encerram o artigo afirmando que os resultados, isolados, não bastam para concluir qualquer coisa sobre o efeito da melatonina em medidas corporais. A meta-análise de menopausa citada acima também não encontrou mudança de índice de massa corporal. Plausibilidade biológica não é desfecho clínico comprovado, e quem vende melatonina como recurso para emagrecer está indo além do que os dados sustentam.

O que a legislação brasileira permite?

A Anvisa autorizou a melatonina como constituinte de suplemento alimentar em outubro de 2021, incluindo a substância na Instrução Normativa 28/2018. O limite de consumo diário permitido nessa condição é de 0,21 mg, e a autorização vale apenas para adultos com 19 anos ou mais. A rotulagem é obrigada a advertir que o produto não deve ser consumido por gestantes, lactantes, crianças e pessoas envolvidas em atividades que exigem atenção constante.

Dois pontos costumam surpreender quem compra o produto. O primeiro: a melatonina não tem, no Brasil, indicação aprovada como medicamento para insônia, distúrbios do sono, ansiedade ou humor. O segundo: as quantidades testadas nos ensaios clínicos internacionais são maiores que o limite autorizado aqui como suplemento. Comparar o frasco que se compra no Brasil com o que foi estudado é, portanto, parte da conversa clínica, não um detalhe burocrático.

A melatonina é segura no uso prolongado?

Essa é a pergunta ainda aberta. Em novembro de 2025, nas Sessões Científicas da American Heart Association, foi apresentado um resumo (Nnadi e colaboradores) com análise retrospectiva de registros eletrônicos de saúde de 130.828 adultos com insônia crônica, seguidos por cinco anos. Entre os que usaram melatonina por pelo menos um ano, a incidência de insuficiência cardíaca foi de 4,6% contra 2,7%, a hospitalização por essa causa foi de 19,0% contra 6,6%, e a mortalidade por qualquer causa foi de 7,8% contra 4,3%.

Esse dado precisa ser lido com cuidado, e a própria American Heart Association fez a ressalva: resumos apresentados em congresso não passaram por revisão por pares e são considerados preliminares até a publicação completa. Um estudo retrospectivo não estabelece causa. Quem dorme mal e usa melatonina por anos pode ser diferente de quem não usa em muitos aspectos que a base de dados não registra. Ainda assim, é um sinal que merece acompanhamento, porque a maior parte dos ensaios de melatonina durou semanas ou poucos meses, e não anos. Ausência de evidência de dano não é prova de segurança.

Quem não deve usar melatonina?

Pela própria regra brasileira, o suplemento não é autorizado para crianças e adolescentes, e a advertência de rótulo exclui gestantes e lactantes, porque não há comprovação de segurança nesses grupos. Em agosto de 2023 a Anvisa proibiu a comercialização de um suplemento de melatonina dirigido ao público infantil justamente por isso.

Há também situações que pedem avaliação individual antes de qualquer uso: pessoas com epilepsia, pessoas em uso de anticoagulantes, quem opera máquinas ou conduz veículos, e quem já usa medicamentos para dormir. E existe o caso mais comum de todos na prática de consultório: o paciente que usa melatonina há meses sem investigar por que o sono está ruim. Apneia do sono, depressão, hipotireoidismo, excesso de cafeína, álcool à noite, dor crônica e sintomas de menopausa produzem sono ruim e nenhum deles se resolve com melatonina. A conduta individual, incluindo a decisão de usar ou não e em que quantidade, é definida em consulta.

O que fazer antes de recorrer ao suplemento

A intervenção com melhor evidência para insônia crônica não é um suplemento: é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, tratamento de primeira linha nas diretrizes internacionais. Horário fixo para acordar, exposição à luz da manhã, redução de luz intensa e de telas nas horas finais do dia, e revisão de cafeína e álcool mudam o relógio biológico sem frasco nenhum. Para quem tem sono ruim ligado a peso, estresse ou fase hormonal, o caminho passa por investigar essa causa.

A melatonina tem lugar. É um lugar específico, de ajuste de horário, e não o de solução geral para noites ruins. Saber a diferença é o que separa usar bem de usar por muito tempo sem resultado.

Perguntas frequentes sobre melatonina

Melatonina é hormônio ou suplemento?

É um hormônio produzido pela glândula pineal. No Brasil, ela é vendida legalmente na forma de suplemento alimentar para adultos, no limite de 0,21 mg por dia, e não como medicamento com indicação aprovada para insônia.

Quanto tempo a melatonina leva para funcionar?

Nos ensaios clínicos, o efeito sobre o tempo para pegar no sono é pequeno e aparece na mesma noite, com redução média de cerca de sete minutos. No jet lag e no atraso de fase do sono, o que determina o resultado é o horário em que ela é tomada, e não o tempo de uso. Tomada no horário errado, ela pode atrasar a adaptação.

Pode tomar melatonina todos os dias?

Não há resposta única, e essa é uma decisão clínica. A maior parte dos ensaios randomizados de melatonina durou semanas ou poucos meses, então a segurança do uso por anos não está estabelecida. Um resumo apresentado em congresso em 2025 levantou associação entre uso prolongado e insuficiência cardíaca em pessoas com insônia crônica, mas o dado é preliminar e não comprova causa.

Criança pode tomar melatonina?

Não como suplemento alimentar no Brasil. A Anvisa não autoriza melatonina em suplementos destinados a crianças e adolescentes, e a rotulagem é obrigada a trazer essa advertência. Qualquer uso em criança é decisão médica, e não de compra em farmácia ou pela internet.

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Conteúdo informativo, sem finalidade de diagnóstico ou prescrição. Escrito por Dra. Nathalia Danelli, CRM/SP 161224.