Vitamina B12: para que serve e quando falta

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Dra. Nathalia Danelli

5 de outubro de 2026

Vitamina B12: para que serve e quando falta

A vitamina B12 é um nutriente que o corpo humano não produz e precisa obter de alimentos de origem animal ou de suplementos. Ela atua como cofator na síntese de DNA, na formação da mielina que reveste os nervos e na produção de glóbulos vermelhos. Quando falta, as duas consequências mais conhecidas são a anemia megaloblástica e o comprometimento da condução nervosa, que pode se manifestar como neuropatia, queixas cognitivas ou sintomas neuropsiquiátricos.

A absorção depende de uma peça específica: o fator intrínseco, uma glicoproteína produzida pelas células parietais do estômago, necessário para que a B12 seja absorvida no íleo terminal. É por isso que problemas de estômago e de intestino, e não apenas a alimentação, estão entre as causas mais comuns de deficiência. A recomendação de ingestão diária para adultos é de 2,4 microgramas.

Qual o tamanho do problema no Brasil?

Um estudo brasileiro publicado na Frontiers in Nutrition em janeiro de 2026 analisou 84 milhões de dosagens de vitamina B12 feitas no país entre 2016 e 2023, nos sistemas público e privado. O volume de exames cresceu mais de 12 vezes no período, de 2 milhões ao ano em 2016 para 25 milhões em 2023. Foram 35 milhões de dosagens no sistema público e 47,8 milhões no privado.

A estimativa de resultados alterados foi de 4 milhões de exames no sistema público, cerca de 11%, e 6 milhões no privado, cerca de 12%. Os autores usaram o critério da Organização Mundial da Saúde e do CDC, que considera alterado o valor abaixo de 221 pmol/L. Vale uma ressalva prática: muitos laboratórios brasileiros informam o resultado em pg/mL, com faixa de referência própria, então o laudo precisa ser lido contra a referência do próprio laboratório.

Por que a deficiência aparece mais em mulheres?

No mesmo estudo, mulheres fizeram cerca de 2,3 vezes mais exames que homens e responderam por 80% dos resultados alterados, nos dois sistemas de saúde. Os autores apontam duas explicações que convivem. Uma é biológica: influências hormonais, demandas reprodutivas e condições autoimunes que afetam a absorção gástrica, como anemia perniciosa e doença da tireoide, podem predispor à deficiência.

A outra é de comportamento de busca por cuidado: mulheres procuram o serviço de saúde com mais frequência, o que aumenta a chance de o exame ser pedido e o problema, encontrado. O contraponto importa: os autores escrevem que homens podem ficar subdiagnosticados até que apareçam manifestações neurológicas ou cardiovasculares mais avançadas. Ou seja, parte da diferença entre os sexos é de detecção, não só de ocorrência.

Quais são as causas mais comuns de deficiência?

As causas se dividem em três grupos. Ingestão insuficiente, que é o caso de dietas com pouco ou nenhum alimento de origem animal. Problemas de absorção, como gastrite atrófica, cirurgia gástrica, anemia perniciosa, doença de Crohn e doença celíaca. E uso prolongado de medicamentos que interferem na absorção, com destaque para inibidores de bomba de prótons e metformina.

Idade avançada aumenta o risco, principalmente quando há absorção prejudicada. O estudo brasileiro também registra que, em crianças, baixa renda e baixa escolaridade materna aparecem como fatores de risco, e cita prevalências de 4,2% em crianças da Amazônia, subindo para 13,6% nas menores de 24 meses, e de 15% em crianças brasileiras de 11 a 15 meses. Um levantamento anterior no país encontrou 7,2% de deficiência em pessoas com 60 anos ou mais e 6,4% entre 30 e 59 anos.

Quem usa metformina precisa monitorar a B12?

Sim, e esse é um dos pontos com evidência mais sólida. Uma análise do Diabetes Prevention Program Outcomes Study, publicada no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism em 2016, acompanhou 1.073 pessoas no grupo metformina e 1.082 no grupo placebo. B12 baixa, definida como 203 pg/mL ou menos, foi mais frequente no grupo metformina em 5 anos, 4,3% contra 2,3%.

Somando valores baixos e limítrofes, a diferença foi maior: 19,1% contra 9,5% em 5 anos e 20,3% contra 15,6% em 13 anos. Cada ano de uso de metformina esteve associado a aumento do risco de deficiência, com razão de chances de 1,13 e intervalo de confiança de 95% entre 1,06 e 1,20. A prevalência de neuropatia foi maior entre quem usava metformina e tinha B12 baixa. Os autores concluíram que a dosagem de rotina da B12 deve ser considerada em pacientes tratados com metformina.

Por que a deficiência passa tanto tempo sem ser percebida?

Porque o fígado armazena vitamina B12 por anos. O estudo brasileiro registra que os estoques hepáticos duram de 3 a 5 anos, o que significa que os sintomas de uma ingestão ou absorção insuficiente podem levar esse tempo para aparecer. Alguém que mudou a alimentação ou começou um medicamento hoje pode não apresentar nada por vários anos.

Esse atraso tem dois efeitos. O primeiro é que a deficiência tende a ser descoberta já instalada, às vezes com manifestação neurológica. O segundo é que ela não se resolve na cabeça do paciente como consequência de uma mudança recente, porque a mudança aconteceu muito antes. É um dos motivos pelos quais a investigação parte do histórico completo e não apenas da queixa atual, assunto que se conecta com o artigo sobre névoa mental.

A deficiência de B12 causa as doenças associadas a ela?

Aqui é preciso cuidado, e os próprios autores do estudo brasileiro fazem a ressalva. As internações com registro de deficiência de B12 cresceram 32% no período, de 598 em 2018 para 870 em 2023, e apareceram correlacionadas com internações por anemia, demência, depressão, doença de Parkinson, doença inflamatória intestinal, acidente vascular cerebral e infarto.

Mas a análise foi feita no nível da população, não do indivíduo, e os autores escrevem explicitamente que não afirmam causalidade direta. Quando ajustaram por comorbidades, renda, índice de Gini e efeitos de região e ano, as associações se mantiveram para anemia, demência, AVC e infarto, e deixaram de alcançar significância estatística para depressão, Parkinson e doença inflamatória intestinal. Correlação populacional não é o mesmo que causa, e os autores pedem estudos de desenho diferente para responder isso.

Quem deve dosar a vitamina B12?

A recomendação de política pública do próprio estudo é rastreamento de rotina em grupos de maior risco: idosos, mulheres em idade reprodutiva, vegetarianos e pessoas com diabetes ou em uso prolongado de metformina ou de inibidores de bomba de prótons. Os autores também defendem alertas eletrônicos na atenção primária para facilitar a detecção precoce.

Uma distinção que o estudo não responde: suplementar quem tem nível normal é outra pergunta, e não foi o que esse trabalho testou. Ele trata de detecção e de carga de doença associada à deficiência. Tratar uma deficiência documentada é diferente de tomar suplemento sem deficiência, e essa segunda conduta não se apoia nos dados apresentados aqui. O tratamento, quando indicado, existe nas formas injetável, oral e sublingual, e a escolha depende de a causa ser de ingestão ou de absorção.

Perguntas frequentes

Quem é vegetariano precisa suplementar vitamina B12?

A vitamina B12 vem de alimentos de origem animal, e o corpo não a produz. Dieta com pouco ou nenhum alimento animal é uma das causas de deficiência reconhecidas, e o estudo brasileiro inclui vegetarianos entre os grupos para rastreamento de rotina. A conduta individual, incluindo forma e necessidade de suplementação, é definida na consulta.

Exame de B12 normal descarta deficiência?

Nem sempre. Os laboratórios usam faixas de referência próprias e o resultado precisa ser lido contra a referência do laboratório e contra o quadro clínico. O estudo brasileiro usou o critério da OMS e do CDC, abaixo de 221 pmol/L. Existem ainda resultados limítrofes, que no estudo foram mais frequentes do que os claramente baixos.

Metformina causa falta de vitamina B12?

O uso prolongado está associado a maior risco. No Diabetes Prevention Program Outcomes Study, cada ano de uso de metformina esteve associado a razão de chances de 1,13 para deficiência, com intervalo de confiança de 95% entre 1,06 e 1,20, e os autores recomendaram considerar a dosagem de rotina nesses pacientes.

Falta de B12 causa demência?

O estudo brasileiro encontrou correlação entre internações com deficiência de B12 e internações por demência, que se manteve após ajuste, mas a análise foi populacional e os próprios autores afirmam que não estabelecem causalidade direta. Correlação em nível de população não é o mesmo que causa em uma pessoa.

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